A Matriz vibracional [portugûes]

 

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Capítulo 1.                 A Matriz vibracional

A chuva atira-se com fúria sobre os telhados da cidade ainda envolta nas trevas. Clarões prateados dos relâmpagos rasgam a noite iluminando os passos da mulher que corre disparada ao longo da pista de bicicletas na margem do lago. A longa saia de flores colou-se-lhe contra o corpo evidenciando o porte esguio. Com um gesto irritado levanta o tecido tanto quanto baste para libertar os joelhos, facilitando-lhe os movimentos. Os longos cabelos cor de âmbar apanhados sobre a nuca soltam-se para os lados ao ritmo da sua passada rápida.
O odor da água é penetrante e insinua-se poderosamente nas narinas da mulher. Regos espumosos transportam ao longo do bordo dos passeios folhas arrancadas aos ramos das árvores pela força do vento. Tudo está envolto na obscuridade, todas as formas parecem querer ganhar vida sempre que um relâmpago profana a abóbada celeste. As árvores emergem como espectros do outro mundo, agitados pela fúria dos elementos. São aqueles momentos em que o humano se relaciona com o divino, momentos de medo profundo e atávico em que o Homem compreende a desmesurada força da Natureza!
Aparentemente todos dormem colados ao sono, enquanto vivem sonhos que representam uma variedade de vida paralela na qual qualquer um pode perder-se incondicionalmente. É a frustração que gera, por vezes, a angústia dos pesadelos, nos quais, deixando cair todas as barreiras, se repete em linguagem onírica aquilo que o obceca no quotidiano.
Mas não é assim para todos: há pessoas que conscientemente sabem transportar-se de uma dimensão para outra, utilizando a força psíquica para entrar neste mundo paranormal onde podem manobrar a própria existência. Esta faculdade que se acreditava aparentemente reservada aos discípulos das práticas esotéricas ocultas, revelaram-se como dotes inatos dos “sonhadores”.
Estes “sonhadores”, vulgarmente chamados Annwyn, são constituídos pela mesma estrutura molecular humana com a finalidade de se protegerem camuflando a sua presença entre nós, mas o poder da sua mente é incomensurável.
Os Annwyn começaram a chegar em grande número ao planeta Terra por volta do final do segundo milénio. De início, nos anos 70, foram tratados como casos anómalos, por vezes sujeitos a verdadeira tortura psicológica, confinados em hospitais e analisados mediante a administração de psicofármacos. Tratava-se de crianças irrequietas e sempre irascíveis que tornavam um verdadeiro inferno a vida dos seus pais. Crescendo, tornavam-se alunos hiperactivos e sempre no centro de conflitos e disputas. Sobre eles tinha-se tratado profundamente e escrito miríades de teses, cada uma mais estranha do que a outra. Só num segundo tempo, graças à descoberta de códices antiquíssimos se compreendeu o verdadeiro motivo da sua presença no planeta Terra: ajudar os seres humanos a progredirem espiritualmente e talvez a salvá-los do cataclismo planetário eminente, predito no final da Antiguidade.
A mulher que persegue o seu destino é, na realidade, uma deles: uma Annwyn e o seu nome é Chrysalis, para os amigos Chrisa. Chrisa pára por alguns segundos olhando para trás, respira com esforço e percebe a sua presença. Está ciente de que o seu perseguidor não lhe dará trégua enquanto não sair da fase R.E.M. [1]
Por uma fracção de segundo perde o equilíbrio ao pousar o pé sobre qualquer coisa de escorregadio; surpreendida, baixa-se para o chão e descobre um estranho artefacto não muito grande. Arriscando o perigo de perder a vantagem que a separa do seu perseguidor, mas dominada pela típica curiosidade dos Annwyn, Chrisa recolhe o objecto do chão sem sequer verificar a sua natureza e guarda-o depressa na bolsa que trás a tiracolo.
Cataratas de água inundam a pista asfaltada de cor verde para bicicletas que, como uma serpente venenosa, a leva mais para leste, até ao porto. Não há vivalma em redor naquela inoportuna hora e falta pouco para a alvorada começar a iluminar o céu do oriente, apagando os terrores da noite.

***Matrix Motus***

No barco, certamente ainda a dormir tranquilo e completamente ignorante do que está acontecendo no mundo dos sonhos dos Annwyn, encontra-se o seu irmão Joshua. Chrisa salta com alguma dificuldade a vedação da barreira da doca e lança-se num último esforço ao longo das pranchas que lhe recordam o teclado dum velho piano, tanto que brilham à luz sinistra das lâmpadas. A curiosidade, a que geralmente a jovem não sabe resistir, é sempre mais forte do que aquela imensa sabedoria que deveria ser inerente à sua natureza. Para ela é um verdadeiro dilema não saber moderá-la ao lidar com a incógnita das decisões arriscadas.
“Devo parar de uma vez por todas! Mas porque não posso levar uma vida normal como ele…?” Chrisa baixa-se para dar um beijo na testa do irmão profundamente adormecido.
“Maldito seja quem nos deixou por herança esta Missão: os humanos necessitarão forçosamente da nossa presença para progredir na sua evolução espiritual?”
A rapariga avizinha-se do seu invólucro físico, que jaz inerte e enrolado na posição fetal; tira do ombro a bolsa e joga-a ao chão. A vibração no ar à volta altera-se assumindo uma coloração dourada muito intensa: a energia dos dois campos -o astral e o material- unem-se quando a Annwyn reentra na sua estrutura física.
Ao nascer do novo dia Joshua acorda de bom humor. Sobe para a coberta do barco à vela, observa as cordas que fixam a embarcação ao ancoradouro, depois, correndo, vai para terra firme.
– Hei, Mário! Estás pronto para a regata de amanhã? Conta que desta vez a minha irmãzinha e eu vamos dar-te água pela barba! –
Joshua olha para o ancião com olhos brilhantes de malícia, enquanto segura o guiador da bicicleta eléctrica. Ao longo do lago já há muita gente, turistas e moradores da cidade que se presenteiam com um relaxante passeio matinal. Um dia aparentemente como outros: o ar está carregado do perfume das flores, uma ligeira brisa faz tilintar os fios metálicos dos barcos ancorados, enquanto os primeiros raios de sol acariciam com calor formigante a paisagem.
Alguns homens da Esquadra Experimental acompanhados dos seus enormes felinos, semelhantes ao cruzamento de um jaguar com um lince, certamente não passam despercebidos no seu uniforme azul e prateado. Detiveram um par de indivíduos e começam a verificar os documentos de identidade antes de os revistar.
Mário deita uma mirada significativa em direcção a Joshua; o seu rosto queimado pelo sol não trai a desaprovação, mas não faz qualquer comentário sobre os recém-chegados. Finge estar demasiado empenhado a enrolar uma corda e, aproximando-se do rapaz, sussurra:
– Enxerga-te, pequeno lobo de água-doce! Não te iludas que tu e Chrisa estejam a ponto de me vencer; sou demasiado astuto, eu! A prova é que, em vez de dormir ou de vaguear de bicicleta sem horas nem destino, eu velejo para treinar um pouco. E lembra-te do velho ditado: ri melhor quem ri por último. Vá, ligeirinho: corre a comprar pão fresco ao Fabrício… antes que todos os croissants de chocolate estejam vendidos. Glutão, que não sabes outra coisa! Vemo-nos para comer massa e batatas ao meio-dia? Diz à tua irmã para se encarregar dos preparos, pois é uma grande cozinheira… dos doces trato eu! –
Joshua penteia os cabelos escuros ligeiramente ondulados, os seus olhos, luminosos como água de rio brilhando ao sol, pousam na figura do amigo. Então faz uma careta divertida ao ancião, que responde com um movimento da cabeça em direcção aos agentes de autoridade e pousa o indicador sobre os lábios. Não havia escapado ao rapaz que os da força de ordem haviam metido no SUV blindado as pessoas detidas:
– Brrr… àqueles tipos não os voltaremos a ver. –
Depois, continuando virado para Mário, com uma expressão excitada:
– Como é? Para almoço trazes mais daquelas mistelas prodigiosas? Santo Egídio, ainda não digeri aquela poção de cuja receita dizes ser obra dos antigos Druidas. Tudo menos creme de alperce! Okay. Que seja a massa. Encontramonos na Avalon’s Mist pelas 13:00. –
O rapaz senta-se sobre a sela da bicicleta e afasta-se rapidamente, pedalando a bom ritmo como a provar ao ancião amigo que também ele se prepara para a regata.

[1 Rapid eye movement, mais usualmente conhecido pelo acrónimo R.E.M., é o ‘movimento rápido dos olhos’ que acontece durante uma fase do sono associado a outras alterações corporais fisiológicas. A fase R.E.M., também chamada sono paradoxal, é acompanhada de sonhos.]

Tradução de    #pedrodealmeidafreire

 

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